terça-feira, 5 de março de 2013

O ANJO PORNOGRÁFICO - Nelson Rodrigues

Nelson Falcão Rodrigues (Recife, 23 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1980) foi um importante jornalista e escritor brasileiro, e tido como o mais influente dramaturgo do Brasil.

Nascido no Recife, Pernambuco, mudou-se em 1916 para a cidade do Rio de Janeiro. Quando maior, trabalhou no jornal A Manhã, de propriedade de seu pai. Foi repórter policial durante longos anos, de onde acumulou uma vasta experiência para escrever suas peças a respeito da sociedade. Sua primeira peça foi A Mulher sem Pecado, que lhe deu os primeiros sinais de prestígio dentro do cenário teatral. O sucesso mesmo veio com Vestido de Noiva, que trazia, em matéria de teatro, uma renovação nunca vista nos palcos brasileiros. A consagração se seguiria com vários outros sucessos, transformando-o no grande representante da literatura teatral do seu tempo, apesar de suas peças serem tachadas muitas vezes como obscenas e imorais. Em 1962, começou a escrever crônicas esportivas, deixando transparecer toda a sua paixão por futebol. Veio a falecer em 1980, no Rio de Janeiro.

Biografia
"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico(desde menino)." - Nelson Rodrigues.

Infância
Nascido na capital de Pernambuco e quinto de quatorze irmãos, Nelson Rodrigues mudou-se para o Rio de Janeiro ainda criança, onde viveria por toda sua vida. Seu pai, o ex-deputado federal e jornalista Mário Rodrigues, perseguido politicamente, resolveu estabelecer-se na então capital federal em julho de 1916, empregando-se no jornal Correio da Manhã, de propriedade de Edmundo Bittencourt.

Segundo o próprio Nelson em suas Memórias, seu grande laboratório e inspiração foi a infância vivida na Zona Norte da cidade. Dos anos passados numa casa simples na rua Alegre, 135 (atual rua Almirante João Cândido Brasil), no bairro de Aldeia Campista, saíram para suas crônicas e peças teatrais as situações provocadas pela moral vigente na classe média dos primeiros anos do século XX e suas tensões morais e materiais.

Sua infância foi marcada por este clima e pela personalidade do garoto Nelson. Retraído, era um leitor compulsivo de livros românticos do século XIX. Nesta época ocorreu também para Nelson a descoberta do futebol, uma paixão que conservaria por toda a vida e que lhe marcaria o estilo literário.

Na década de 1920, Mário Rodrigues fundou o jornal A Manhã, após romper com Edmundo Bittencourt. Seria no jornal do pai que Nélson começaria sua carreira jornalística, na seção de polícia, com apenas treze anos de idade. Os relatos de crimes passionais e pactos de morte entre casais apaixonados incendiavam a imaginação do adolescente romântico, que utilizaria muitas das histórias reais que cobria em suas crônicas futuras. Neste período a família Rodrigues conseguiria atingir uma situação financeira confortável, mudando-se para o bairro de Copacabana, então um arrabalde luxuoso da orla carioca.

Apesar da bonança, Mário Rodrigues perderia o controle acionário de A Manhã para o sócio. Mas, em 1928, com o providencial auxílio financeiro do vice-presidente Fernando de Melo Viana, Mário fundou o diário Crítica.

Como cronista esportivo, Nelson escreveu textos antológicos sobre o Fluminense Football Club, clube para o qual torcia fervorosamente. A maioria dos textos eram publicados no Jornal dos Sports. Junto com seu irmão, o jornalista Mário Filho, Nelson foi fundamental para que os Fla-Flu tivessem conquistado o prestígio que conquistaram e se tornassem grandes clássicos do futebol brasileiro. Nelson Rodrigues criou e evocava personagens fictícios como Gravatinha e Sobrenatural de Almeida para elaborar textos a respeito dos acontecimentos esportivos relacionados ao clube do coração.

Adolescência e juventude
Nelson seguiu os seus irmãos Mílton, Mário Filho e Roberto integrando a redação do novo jornal. Ali continuou a escrever na página de polícia, enquanto Mário Filho cuidava dos esportes e Roberto, um talentoso desenhista, fazia as ilustrações. Crítica era um sucesso de vendas, misturando uma cobertura política apaixonada com o relato sensacionalista de crimes. Mas o jornal existiria por pouco tempo. Em 26 de dezembro de 1929, a primeira página de Crítica trouxe o relato da separação do casal Sylvia Serafim e João Thibau Jr. Ilustrada por Roberto e assinada pelo repórter Orestes Barbosa, a matéria provocou uma tragédia. Sylvia, a esposa que se desquitara do marido e cujo nome fora exposto na reportagem invadiu a redação de Crítica e atirou em Roberto com uma arma comprada naquele dia. Nelson testemunhou o crime e a agonia do irmão, que morreu dias depois.

Mário Rodrigues, deprimido com a perda do filho, faleceu poucos meses depois. Sylvia, apoiada pelas sufragistas e por boa parte da imprensa concorrente de Crítica, foi absolvida do crime. Finalmente, durante a Revolução de 30, a gráfica e a redação de Crítica são empastelados e o jornal deixa de existir. Sem seu chefe e sem fonte de sustento, a família Rodrigues mergulha em decadência financeira.

Foram anos de fome e dificuldades para todos. Pouco afinados com o novo regime, os Rodrigues demorariam anos para se recuperarem dos prejuízos causados pela tuberculose.

Ajudado por Mário Filho, amigo de Roberto Marinho, Nélson passa a trabalhar no jornal O Globo, sem salário. Apenas em 1932 é que Nélson seria efetivado como repórter no jornal. Pouco tempo depois, Nelson descobriu-se tuberculoso. Para tratar-se, retira-se do Rio de Janeiro e passa longas temporadas em um sanatório na cidade de Campos do Jordão. Seu tratamento é custeado por Marinho, que conquistou a gratidão de Nélson pelo resto de sua vida. Recuperado, Nelson volta ao Rio e assume a seção cultural de O Globo, fazendo a crítica de ópera.

No O Globo, foi editor do suplemento O Globo Juvenil, além de editar Nelson roteirizou algumas história em quadrinhos para o suplemento, dentre elas uma versão de O fantasma de Canterville de Oscar Wilde.

Em 1940 casou-se com Elza Bretanha, sua colega de redação.

A partir da década de 1940, Nelson dividiu-se entre o emprego em O Globo e a elaboração de peças teatrais. Em 1941 escreve A mulher sem pecado, que estreou sem sucesso. Pouco tempo depois assinou a revolucionária Vestido de noiva, peça dirigida por Zbigniew Ziembiński e que estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro com estrondoso sucesso.

O teatrólogo Nelson Rodrigues seria o criador de uma sintaxe toda particular e inédita nos palcos brasileiros. Suas personagens trouxeram para a ribalta expressões tipicamente cariocas e gírias da época, como "batata!" e "você é cacete, mesmo!". Vestido de noiva é considerada até hoje como o marco inicial do moderno teatro brasileiro.

Maturidade
Em 1945 abandonou O Globo e passou a trabalhar nos Diários Associados. Em O Jornal, um dos veículos de propriedade de Assis Chateaubriand, começou a escrever seu primeiro folhetim, Meu destino é pecar, assinado pelo pseudônimo "Susana Flag". O sucesso do folhetim alavancou as vendas de O Jornal e estimulou Nelson a escrever sua terceira peça, Álbum de família.

Em fevereiro de 1946, o texto da peça foi submetido à Censura Federal e proibido. Álbum de família só seria liberada em 1965. Em abril de 1948 estreou Anjo negro, peça que possibilitou a Nelson adquirir uma casa no bairro do Andaraí e em 1949 Nelson lançou Doroteia.

Em 1950 passou a trabalhar no jornal de Samuel Wainer, a Última Hora. No jornal, Nélson começou a escrever as crônicas de A vida como ela é, seu maior sucesso jornalístico. Na década seguinte, Nelson passou a trabalhar na recém-fundada TV Globo, participando da bancada da Grande Resenha Esportiva Facit, a primeira "mesa-redonda" sobre futebol da televisão brasileira e, em 1967, passou a publicar suas Memórias no mesmo jornal Correio da Manhã onde seu pai trabalhou cinquenta anos antes.

O fim
Nos anos 70, consagrado como jornalista e teatrólogo, a saúde de Nélson começa a decair, por causa de problemas gastroenterológicos e cardíacos de que era portador. O período coincide com os anos da ditadura militar, que Nelson sempre apoiou. Entretanto, seu filho Nelson Rodrigues Filho tornou-se guerrilheiro e passou para a clandestinidade. Nesse período também aconteceu o fim de seu casamento com Elza e o início do relacionamento com Lúcia Cruz Lima, com quem teria uma filha, Daniela, nascida com problemas mentais. Depois do término do relacionamento com Lúcia, Nelson ainda manteria um rápido casamento com sua secretária Helena Maria, antes de reatar seu casamento com Elza.

Nelson faleceu numa manhã de domingo, em 1980, aos 68 anos de idade, de complicações cardíacas e respiratórias. Foi enterrado no Cemitério São João Batista, em Botafogo. No fim da tarde daquele mesmo dia ele faria treze pontos na Loteria Esportiva, num "bolão" com seu irmão Augusto e alguns amigos de "O Globo". Dois meses depois, Elza atendia ao pedido do marido — de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide de seu túmulo, sob a inscrição: "Unidos para além da vida e da morte. E é só".

Obras
Características da obra
O teatro entrou na vida de Nelson Rodrigues por acaso. Uma vez que se encontrava em dificuldades financeiras, achou no teatro uma possibilidade de sair da situação difícil em que estava. Assim, escreveu "A mulher sem pecado…", sua primeira peça. Segundo algumas fontes, Nelson tinha o romance como gênero literário predileto, e suas peças seguiram essa predileção, pois as mesmas são como romances em forma de texto teatral. Nelson é um originalíssimo realista. Não é à toa que foi considerado um novo Eça. De fato, a prosa de Nelson era realista e, tal como os realistas do século XIX, ele criticou a sociedade e suas instituições, sobretudo o casamento.

Sendo esteticamente realista em pleno Modernismo, Nelson não deixou de inovar tal como fizeram os modernos. O autor transpôs a tragédia grega para o sociedade carioca do início do século XX, e dessa transposição surgiu a "tragédia carioca", com as mesmas regras daquela, mas com um tom contemporâneo. O erotismo está muito presente na obra de Nelson Rodrigues, o que lhe garante o título de realista. Nelson não hesitou em denunciar a sordidez da sociedade tal como o fez Eça de Queirós em suas obras. Esse erotismo realista de Nelson teve sua gênese em obras do século XIX, como "O Primo Basílio", e se desenvolveu grandemente na obra do autor pernambucano. Em síntese, Nelson foi um grande escritor, dramaturgo e cronista, e está imortalizado na literatura brasileira.

Acervo
O Cedoc – Centro de Documentação da Funarte possui amplo acervo sobre o dramaturgo, como fotos de peças, programas das produções teatrais, resenhas e comentários sobre espetáculos teatrais, entre eles Vestido de Noiva, encenado pela primeira vez para um Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Boa parte dos registros fotográficos de peças do dramaturgo existentes no Cedoc foram feitos pelo Estúdio Foto Carlos, que, nas décadas de 40, 50, 60, 70 e 80 e foram digitalizadas graças ao projeto Brasil Memória das Artes, incluindo registros de raridades, como uma participação de Nelson Rodrigues como ator. No Portal da Funarte ainda é possível ver vídeos produzidos sobre o dramaturgo e sua obra.

Frases
A coleção de pérolas rodrigueanas daria para encher uma enciclopédia. Ruy Castro organizou, para a Editora Companhia das Letras, um volume que reúne, sob o título de Flor de Obsessão, as “mil melhores frases” do homem. Se quisesse, reuniria três mil, como estas vinte:
  • “O brasileiro é um feriado”.
  • “O Brasil é um elefante geográfico. Falta-lhe, porém, um rajá, isto é, um líder que o monte”.
  • “Sou a maior velhice da América Latina. Já me confessei uma múmia, com todos os achaques das múmias”.
  • “Toda oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dusseldorf”.
  • “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”
  • “Na vida, o importante é fracassar”
  • “A Europa é uma burrice aparelhada de museus”.
  • “Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. O repórter mente pouco, mente cada vez menos”.
  • “Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de ”a mais cínica das épocas”. O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltradas”.
  • “Sexo é para operário”.
  • “O socialismo ficará como um pesadelo humorístico da História”.
  • “Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos”.
  • “As grandes convivências estão a um milímetro do tédio”.
  • “Todo tímido é candidato a um crime sexual”.
  • “Todas as vaias são boas, inclusive as más”.
  • “O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato”
  • “Não gosto de minha voz. Eu a tenho sob protesto. Há, entre mim e minha voz, uma incompatibilidade irreversível”.
  • “Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saenz Peña. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte”.
  • “O adulto não existe. O homem é um menino perene”.
  • "Não vou para o inferno, mas não tenho asas"
  • "O óbvio também é filho de Deus."
  • "O dinheiro compra até amor sincero."
Teatro
Nélson Rodrigues escreveu dezessete peças teatrais. Sua edição completa abrange quatro volumes, divididos segundo critérios do crítico Sábato Magaldi, que agrupou as obras de acordo com suas características, dividindo-as em três grupos: Peças psicológicas, Peças míticas e Tragédias cariocas. Assim, as peças seguem o plano de publicação:

Peças psicológicas
  • A mulher sem pecado
  • Vestido de noiva
  • Valsa nº 6
  • Viúva, porém honesta
  • Anti-Nélson Rodrigues

Peças míticas
  • Álbum de família
  • Anjo negro
  • Senhora dos Afogados
  • Doroteia

Tragédias Cariocas I
  • A falecida
  • Perdoa-me por me traíres
  • Os Sete Gatinhos
  • Boca de ouro

Tragédias Cariocas II
  • O beijo no asfalto
  • Bonitinha, mas ordinária ou Otto Lara Rezende
  • Toda Nudez Será Castigada
  • A serpente

Ordem cronológicaEstreias das peças (todas no Rio de Janeiro)
  • A mulher sem pecado - 1941 - Direção: Rodolfo Mayer
  • Vestido de noiva - 1943 - Direção: Zbigniew Ziembiński
  • Álbum de família - 1946 - Direção: Kleber Santos
  • Anjo negro - 1947 - Direção: Zbigniew Ziembiński
  • Senhora dos Afogados - 1947 - Direção: Bibi Ferreira
  • Doroteia - 1949 - Direção: Zbigniew Ziembiński
  • Valsa nº 6 - 1951 - Direção: Milton Rodrigues
  • A falecida - 1953 - Direção: José Maria Monteiro
  • Perdoa-me por me traíres - 1957 - Direção: Léo Júsi
  • Viúva, porém honesta - 1957 - Direção: Willy Keller
  • Os sete gatinhos - 1958 - Direção: Willy Keller
  • Boca de ouro - 1959 - Direção: José Renato
  • O beijo no asfalto - 1960 - Direção: Fernando Torres
  • Bonitinha, mas ordinária - 1962 - Direção Martim Gonçalves
  • Toda nudez será castigada - 1965 - Direção: Zbigniew Ziembiński
  • Anti-Nélson Rodrigues - 1974 - Direção: Paulo César Pereio
  • A serpente - 1978 - Direção: Marcos Flaksman

Romances
  • Meu destino é pecar - 1944
  • Escravas do amor - 1944
  • Minha vida - 1944
  • Núpcias de fogo - 1948
  • A mulher que amou demais - 1949
  • O homem proibido - 1959
  • A mentira - 1953
  • Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus Pecados e Seus Amores - 1959
  • O casamento - 1966

Contos
  • Cem contos escolhidos - A vida como ela é... - 1972
  • Elas gostam de apanhar - 1974
  • A vida como ela é — O homem fiel e outros contos - 1992
  • A dama do lotação e outros contos e crônicas - 1992
  • A coroa de orquídeas - 1992

Crônicas
  • Memórias de Nélson Rodrigues - 1967
  • O óbvio ululante: primeiras confissões - 1968
  • A cabra vadia - 1970
  • O reacionário: memórias e confissões - 1977
  • Fla-Flu...e as multidões despertaram - 1987
  • O remador de Ben-Hur - 1992
  • A cabra vadia - Novas confissões - 1992
  • A pátria sem chuteiras - Novas Crônicas de Futebol - 1992
  • A menina sem estrela - memórias - 1992
  • À sombra das chuteiras imortais - Crônicas de Futebol - 1992
  • A mulher do próximo - 1992
  • Nélson Rodrigues, o Profeta Tricolor - 2002
  • O Berro impresso nas Manchetes - 2007
  • O quadrúpede de vinte e oito patas

TelenovelasBaseadas na obra de Nélson Rodrigues
  • A morta sem espelho - TV Rio - 1963
  • Sonho de amor - TV Rio - 1964
  • O desconhecido - TV Rio - 1964
  • O homem proibido - TV Globo - 1982
  • Meu Destino É Pecar - TV Globo - 1984
  • Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados - TV Globo - 1995
  • A Vida Como Ela É - TV Globo - 1996

FilmesBaseados na obra de Nélson Rodrigues

  • Somos dois - 1950 - Direção: Milton Rodrigues
  • Meu destino é pecar - 1952 - Direção: Manuel Pelufo
  • Mulheres e milhões - 1961 - Direção: Jorge Ileli
  • Boca de ouro - 1963 - Direção: Nelson Pereira dos Santos
  • Meu nome é Pelé - 1963 - Direção: Carlos Hugo Christensen
  • Bonitinha mas ordinária - 1963 - Direção: J.P. de Carvalho
  • Asfalto selvagem - 1964 - Direção: J.B. Tanko
  • A falecida - 1965 - Direção: Leon Hirszman
  • O beijo - 1966 - Direção: Flávio Tambellini
  • Engraçadinha depois dos trinta - 1966 - Direção: J.B. Tanko
  • Toda nudez será castigada - 1973 - Direção: Arnaldo Jabor
  • O casamento - 1975 - Direção: Arnaldo Jabor
  • A dama do lotação - 1978 - Direção: Neville d'Almeida
  • Os sete gatinhos - 1980 - Direção: Neville d'Almeida
  • O beijo no asfalto - 1980 - Direção: Bruno Barreto
  • Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Rezende - 1981 - Direção: Braz Chediak
  • Álbum de família - 1981 - Direção: Braz Chediak
  • Engraçadinha - 1981 - Direção: Haroldo Marinho Barbosa
  • Perdoa-me por me traíres - 1983 - Direção: Braz Chediak
  • Boca de ouro - 1990 - Direção: Walter Avancini
  • Traição - 1998 - Direcão: Arthur Fontes, Cláudio Torres e José Henrique Fonseca
  • Gêmeas - 1999 - Direção: Andrucha Waddington
  • Vestido de noiva - 2006 - Direção de Joffre Rodrigues
  • Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Rezende - 2009

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

SELECIONADO ELENCO DO ESPETÁCULO "ÁLBUM DE FAMÍLIA"!!!

Foi realizada na última sexta-feira a seleção de elenco para o espetáculo "ÁLBUM DE FAMÍLIA", de Nelson Rodrigues que será montado pelo PROSCENIUM.

Parabenizamos aos atores e atrizes abaixo e desejamos muita MERDA a todos!

Veja abaixo, em ordem alfabética, quem serão os atores e atrizes do espetáculo:

ARIANE TAVARES


CAROLINA EMBOAVA


DENISSE TORRES


JEFLEY MAURÍCIO


KARINA SAYURI FUGII


KIOHARA SCHWAAB


LEONARDO DE CASTRO


LIDIANE CAVAZZANA


RODSON WILLYAMS


WEDER PAES

Que todos possam contemplar o sucesso que esse espetáculo irá nos proporcionar!

Um forte abraço pessoal, quem gostou, compartilha. Se não gostou, fale conosco para que possamos melhorar cada vez mais...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Álbum de família, de Nelson Rodrigues

Em 1945 Nelson escreveu a peça Álbum de família, uma tragédia incestuosa de proporções bíblicas. Os censores do governo Dutra proibiram a peça em todo o país sob a alegação de que "preconizava o incesto" e "incitava ao crime". A peça rotulou Nelson, definitivamente, de autor maldito.

Álbum de Família pode ser considerada uma evolução natural na temática de Nelson Rodrigues. Depois de mostrar a semi-consciência de Alaíde, em Vestido de Noiva, e o delírio de Sônia, em Valsa nº 6, nada mais natural do que um mergulho no inconsciente primitivo do homem. Em Álbum de Família, Nelson Rodrigues escolheu mostrar o cotidiano de uma família aparentemente comum, formada pelo casal, os quatro filhos e a tia solteirona. A normalidade do clã, porém, logo é desmistificado para o público. Não há uma única personagem que não perca sua máscara em algum momento da peça.

O incesto, grande tabu da humanidade, aparece aqui como uma das personagens principais. Glória, a filha, é apaixonada pelo pai; Edmundo, o filho, é apaixonado pela mãe; Guilherme, o primogênito, castrou-se para não ameaçar a virgindade da irmã, por quem ainda é apaixonado; Jonas, o pai, compensa o amor irrealizável pela filha desvirginando meninas de 12 a 16 anos na própria casa; Dona Senhorinha, a mãe, é apaixonada pelo filho Nonô, louco que vive pelado pelos arredores da fazenda. Álbum de Família é, antes de tudo, uma peça freudiana. Nela aparecem típicos personagens de Freud, como Édipo, o garoto que se casa com a mãe, e Electra, a menina que não consegue superar seu amor pelo pai.

Neste contexto, não existe a mínima possibilidade de as personagens de Álbum de Famíliaparecerem pessoas comuns. Representando arquétipos da psicologia, elas simbolizam idéias como o impulso natural ao incesto, a paixão carnal entre irmãos, a sexualidade instintiva e a frigidez. Extremamente ousada para a época, a peça inaugurou um novo filão na dramaturgia de Nelson Rodrigues: o teatro desagradável. Aterrorizada com "a torpeza, a incapacidade literária, a falta de nobreza, o sacrilégio e a imoralidade", a censura do governo getulista segurou o texto e não liberou nem sob protestos de vários intelectuais da época. Manuel Bandeira, já considerado um dos melhores poetas do Brasil, saiu em defesa de Nelson Rodrigues com um artigo onde garantia que o autor de Álbum de Família era, de longe, o maior poeta dramático que já apareceu na literatura brasileira.

Como vingança à hostilidade do governo, Nelson Rodrigues publicou a peça em livro, levantando ainda mais polêmica. O crítico Álvaro Lins, até então amigo pessoal do dramaturgo, aproveitou a confusão e dedicou sua coluna no jornal para falar mal da peça. "Se todos são incestuosos, onde está a tragédia", perguntava-se, indignado. E foi mais longe: "Álbum de Família é banal na concepção, vulgar na forma, chula, primária, grosseira, além de um mar de enganos, erros, atrapalhações e insuficiências", concluiu.

Graças à polêmica que permeou a publicação do texto, Nelson Rodrigues teve que carregar pelo resto da vida o estigma de "dramaturgo maldito". A repercussão foi tanta que a peça, escrita em 45, só foi encenada pela primeira vez em julho de 67. Mas é exatamente pelas questões abordadas, responsáveis pela censura que manteve a peça afastada dos palcos por mais de vinte anos, que Álbum de Família merece um lugar de destaque na dramaturgia brasileira.

Forma, personagens e teorias

Em Álbum de família os personagens constituem uma família vivendo como que isolada da realidade social que não seja ela própria: eles se amam e se odeiam, dentro da própria família. Isso leva à concentração de vários tipos de incestos: pai e filha, mãe e filho, irmão e irmã. Mostram o homem brutalizado, transgredindo as regras sociais. Mostram, através de uma família desintegrada, toda uma sociedade patriarcal decadente.

A religiosidade tem presença marcante na obra, como se servisse de fachada para esconder o pecado, a hipocrisia, a imoralidade. Analisando os personagens e seus nomes, observamos que nos remetem insistentemente a um contexto religioso.

Jonas é o patriarca, está relacionado a Jesus. Jesus e Jonas são nomes iniciados com a mesma letra e têm o mesmo número de letras. Jonas e Jesus comparam-se sob a vista de Glória, a filha de Jonas. “Eu sou o pai. O pai é sagrado, o pai é o senhor”. Age como se a esposa e os filhos fossem propriedade sua. Agressivo, diabólico, estupra meninas-moças pobres, engravida-as, como se esta fosse a forma de impingir castigo à esposa, por suspeitar de infidelidade conjugal. É traído por D. Senhorinha e pelo filho Nonô. Jonas tem quatro filhos com D. Senhorinha. Edmundo é casado com Heloísa, mas não a ama e nem se relaciona com ela e nem com ninguém. Ama a mãe e se sente traído por Nonô.

Nonô vive na loucura, é louco. E o diferente causa vergonha: “Eu conheço o grito dele. Aliás, não é grito, uma coisa, não sei. Parece uivo, sei lá. Se eu fosse você, tinha vergonha!” (Tia Rute). Anda despido para tirar a sujeira, o pecado. Busca, dessa forma, o “ser ??†? ?puro”. Vive a sua loucura para fugir da realidade. Lambe o chão, como se quisesse limpar a alma e encontrar a verdadeira essência, a sua purificação. “Você não viu, outro dia, da janela, ele lambendo o chão?”. Gosta da chuva porque lava a sujeira. “Ele está feliz com a chuva. Gosta da chuva se esfrega nas poças de água...” (Guilherme). Nonô nutre ódio pelo pai e amor pela mãe, complexo de Édipo. Há uma relação incestuosa entre os dois.

Guilherme, seminarista, ama sua irmã Glória. Mutila-se por amor. Na castração, procura uma solução para não cometer o pecado de possuir a irmã. Age como protetor de Glória, guardando-a do seu próprio pai.

Glória, amante de Teresa, uma colega no internato de freiras, Glória, amante platônica do irmão, Guilherme. E amante de Jonas, o pai, consumação do complexo de Electra. A volta de Glória ao lar inicia a série de tragédias familiares.

Tia Rute é cunhada de Jonas, relacionara-se sexualmente com ele uma vez, quando se encontrava embriagado. É feia e nutre profunda inveja por sua irmã, D. Senhorinha, por sua beleza e por ter se casado com Jonas.

D. Senhorinha relaciona-se com Nossa Senhora, tanto na grafia do nome, como no enredo da peça. Entretanto, se pela beleza física as duas se aproximam, quanto a modelos, não podemos dizer que D. Senhorinha, mãe que mantém relações sexuais com o filho, seja um exemplo a ser seguido. Senhorinha como diminutivo de senhora, já expressa a inferioridade da personagem como mãe, em relação a Nossa Senhora. Ela não foi, como convém à mãe, um elo de união da família, pelo contrário, foi um elemento forte de desagregação familiar. Prima e esposa oprimida de Jonas, bonita, individualista e rebelde, de certa forma, fez seu próprio destino. Tenta libertar-se de um casamento asfixiante, dando vazão a suas fantasias e age por impulsos. Ela não é uma mulher normal para os padrões vigentes. D. Senhorinha agride, surpreende e mostra uma força interior ainda não reconhecida pela sociedad??†? ?e, na primeira metade do século XX, libertando-se, de certa forma, da passividade a ela imposta. Os conflitos da mulher não encontram solução favorável. Ela tem alguma coisa de vítima, mesmo parecendo vilã.

Através de uma breve análise das sete fotos que compõem o álbum, que são feitas depois de uma coreografia do fotógrafo frente à imobilidade das pessoas da família, temos a trajetória dos membros dessa família.

A primeira foto mostra o casal de primos, Jonas e Senhorinha, um dia depois do casamento. Treze anos depois, o mesmo ritual com a segunda foto, o casal mais os quatro filhos, todos estáticos. Na terceira foto, temos Glória, sozinha, na primeira comunhão, representando, numa pose mística, inclusive com as duas alegorias esquecidas inicialmente pelo fotógrafo: o rosário e o livrinho de missa. O quarto retrato é o de D. Senhorinha e sua irmã – tia Rute – duas irmãs, a bela e a feia que disputaram o mesmo homem. A quinta fotografia nos mostra o misterioso Nonô ao lado da mãe e amante, D. Senhorinha. Jonas, sozinho e como se estivesse morto por dentro, mostra-se na sexta foto. Na sétima e última foto, aparece o casal Edmundo e Heloísa, demonstrando frieza e solidão.

Com uma história controversa como esta, nem mesmo Nelson Rodrigues esperava cair no gosto do público - muito menos no gosto da censura. O que pouca gente percebeu na época, porém, foi o tom propositalmente absurdo que o dramaturgo imprimiu à peça. A família de Jonas e dona Senhorinha vive num mundo à parte, além do bem e do mal e completamente distante de qualquer tipo de realidade. Os pais e os quatro filhos não entraram no jogo social a que todos são submetidos, muito menos reprimiram seus impulsos. Não criaram tabus e, de certa forma, seguiram como bichos seus próprios instintos.

As personagens de Álbum de Família não têm censura e são avessas a quaisquer padrões. O mundo criado pelo dramaturgo desta vez é absolutamente mítico, imaginativo, sem compromisso algum com a realidade. Várias meninas morrem grávidas de Jonas sem que haja nenhum inquérito policial, por exemplo. Não existem vizinhos nem ninguém para contrabalancear a existência absurda da família de Senhorinha. Tudo é mostrado como se aquela família fosse a única do mundo. Ou, indo mais longe, como se a família de Jonas fosse a representação de todas as família existentes no mundo.

Outra característica importante nesta quarta peça de Nelson Rodrigues é a ausência de metáforas. Tudo é muito claro e, de certa forma, desprovido de fantasia. O crítico Sérgio Milliet, por exemplo, disse que "a literatura de Álbum de Família descamba para a ilustração psicanalítica e deixa de nos empolgar como obra de arte em si". De certa maneira, a crueza com que o autor trata o incesto, mostrando uma família que não consegue manter outro tipo de relação, distancia o espectador daquele universo. Provavelmente ninguém se identificou com aquelas vidas no palco, nem mesmo com as suas atitudes. Deste modo, o espetáculo passa a ser visto como um verdadeiro absurdo, algo completamente distante da (assim chamada) "vida real".

Por causa deste aspecto surreal, as personagens de Álbum de Família existem para justificar alguma teoria. Representando arquétipos muito mais do que pessoas reais, a família incestuosa desta "tragédia em três atos" é essencialmente freudiana. Nelson Rodrigues abandona de vez a consistência psicológica das personagens para mergulhar nas desordenadas raízes inconscientes. A teia de relações incestuosas e conflitantes da família de dona Senhorinha e Jonas revela ao espectador uma condição inerente ao ser humano, mas que, por causa da sociedade, foi jogada para baixo do tapete. A tragédia certamente jamais aconteceria com a família do espectador. Mas ela serve, por exemplo, para representar de modo extremado aquela facilidade que a filha mulher tem de se entender melhor com o pai e vice versa. Em Álbum de Família, Nelson Rodrigues faz o espectador olhar com lupa situações que costumam passar despercebidas no cotidiano. E a lente que ele usa para enxergar essas situações provoca um aumento extremamente distorcido e tendencioso, como convém a um dramaturgo que procura focar determinados conflitos humanos.

Álbum de Família tem dois vetores dramáticos que desencadeiam a ação. Em primeiro lugar aparece a relação lésbica de Glória e Tereza, no dormitório do internato de onde são expulsas. O segundo é a ligação incestuosa entre dona Senhorinha e seu filho Nonô. A ligação entre os dois produz efeitos decisivos que transformam a história. Após transar com a mãe, Nonô enlouquece e fica rondando a casa nu, gritando e uivando como um animal. Outro desdobramento acontece quando Jonas vê um homem sair do quarto de dona Senhorinha pela janela e, sem identificá-lo, começa a deflorar menininhas de doze a dezesseis anos, na própria casa, para se vingar da mulher. Durante os três atos em que se desenrolam essas histórias, ouve-se os gritos (fora de quadro) das dores de parto de uma menina que engravidou de Jonas. Por causa das bacias extremamente estreitas, ineficientes para parir uma criança, ela acaba morrendo no final da peça. Apesar da história da família de Jonas acontecer entre os anos de 1900 e 1924, ela é absolutamente atemporal. Nada impediria que Nelson Rodrigues tivesse escolhido um ano mais recente para situá-la, por exemplo.

Por causa da história intrincada e dos protagonistas fortes e marcantes, Álbum de Famíliatem poucas personagens secundárias. A mais importante delas é a tia Rute, "solteira, tipo de mulher sem o menor encanto sexual". Por gratidão a uma noite de amor, Rute arranja as menininhas que Jonas desvirgina - mais uma vez aparece na dramaturgia rodrigueana o envolvimento de duas irmãs com o mesmo homem. As outras personagens secundárias são Tereza, a menina que teve uma relação lésbica com Gloria e lhe jurou fidelidade eterna, e Heloísa, ex-mulher de Edmundo, intocada, que aparece no enterro dele para insinuar a Senhorinha a relação incestuosa dos dois. Existe também o fotógrafo, responsável pela documentação dos momentos expressivos para o álbum da família, e o speaker, homem que fica a peça inteira passando informações erradas sobre as personagens e o desenrolar dos fatos. Nelson Rodrigues o definiu ironicamente como "a opinião pública".

Ao contrário da imoralidade que a maioria associou à peça na época, Nelson Rodrigues provou ser um grande moralista. O incesto aparece em Álbum de Família como o sinônimo mais exato da morte. Numa espécie de moral da história, o dramaturgo defende que a censura da sociedade, instituição que reprimiu o impulso do ser humano para o incesto, salvou o mundo da barbárie. Não fosse a sociedade, estaríamos todos vivendo como animais, comendo e matando uns aos outros.

Para representar ainda melhor a tensão que significa viver seus próprios instintos sem nenhuma espécie de freio, não há em Álbum de Família uma única personagem que sorri em cena. O clima é árido, os diálogos são dolorosos e a frase que paira no ar durante toda a peça é fatalista e profética: o incesto não compensa, graças a Deus a sociedade está aqui para nos salvar. Para o crítico Sábato Magaldi, "a história e a civilização traem inapelavelmente a inteireza dos impulsos autênticos, disfarçados, transferidos ou sublimados em outros valores. Mas são esses valores que propiciam a continuidade da vida. Se correto esse raciocínio,Álbum de Família deixaria de ser a tragédia que assustou os bens pensantes, para testemunhar o moralismo congênito do dramaturgo".

Estrutura

Desta vez, Nelson Rodrigues deixou as inovações para o aspecto textual da peça. Ao contrário de Vestido de Noiva, com sua antológica estruturação em três níveis de consciência, Álbum de Família chega a ser até banal na sua representação cênica. A maior inovação está nas presenças do fotógrafo, sempre tirando os retratos para o álbum da família, e do speaker, descrevendo a família com um distanciamento suspeito e um olhar definido pelo autor como uma espécie de "opinião pública". Sobre o speaker, Nelson Rodrigues escreveu na rubrica da peça: "ele tem mau gosto nos comentários e prima por oferecer informações erradas sobre a família".

A primeira cena mostra o retrato de Senhorinha e Jonas, um dia após o casamento. Em seguida aparece Gloria e Tereza, no dormitório do internato, jurando amor eterno e fidelidade entre si. Com o clima obsessivo entre as duas meninas, o espectador já está preparado para penetrar na obscura fazenda onde vive a família de Jonas. Já num primeiro contato, a platéia já desconfia que o único sentimento comum a toda aquela família esquisita é o amor incestuoso.

As aparições do fotógrafo e do speaker acontecem em momentos cruciais do texto. Logo depois que dona Senhorinha fica sabendo da relação sexual que aconteceu entre Jonas e sua irmã Rute, por exemplo. Na 2ª foto, logo após a revelação, o casal está acompanhado dos quatro filhos. As conclusões do speaker são opostas ao que o espectador acabou de ver ou, pelo menos, bem diferentes das cenas que ele verá em seqüência.

O 2º ato começa com outra página do álbum, desta vez retratando Gloria na 1ª comunhão. Enquanto o fotógrafo está tirando a foto de Gloria, o speaker diz que a menina é muito obediente à mãe e que elas se amam mais do que tudo na vida. Em seguida acontece o encontro entre Guilherme e Glória, já expulsa do colégio interno, e o espectador fica sabendo que ele decidiu ser padre apenas para fugir do desejo que sentia por Gloria. Contrariando o speaker e seu senso comum, a menina confessa que em nenhum momento da sua vida chegou a gostar da mãe.

Na cena da Igreja acontece um fato de bastante apelo dramático: o Cristo que o espectador vê no altar tem o rosto de Jonas. Glória chega a comentar isto com o irmão, mas ele diz que não vê nenhuma semelhança e garante que ela está ficando louca. Mas a imagem de Jesus Cristo está, segundo a indicação de Nelson Rodrigues para o cenógrafo, muito maior do que o normal e tem a expressão e os traços de Jonas. O espectador, nesta cena, é cúmplice da filha caçula. Observa os acontecimentos com os olhos e a mente fantasiosa da menina. Quando Gloria é assassinada pelo irmão, ali mesmo na Igreja, a imagem de Jesus Cristo volta para o tamanho normal e seu rosto passa a ser o habitual. Com recursos expressionistas, Nelson Rodrigues fez com que o espectador visse a cena através dos olhos de Gloria, como uma câmara subjetiva faria no cinema, para, após da morte da menina, ser jogado novamente no mundo real.

A estruturação da tensão em Álbum de Família segue o estilo da maioria das peças de Nelson Rodrigues. A história vai se desenrolando no decorrer do ato, os mistérios vão aparecendo e o ponto máximo de tensão acontece sempre no último quadro dos atos. No final do segundo, por exemplo, é Gloria quem morre. Outro fator de tensão trabalhado na peça são as cenas em que Jonas e dona Senhorinha aparecem juntos. Em nenhum momento, dona Senhorinha encara o marido. Está sempre de perfil para ele e a única vez em que o olha de frente é para matá-lo, no velório de Edmundo e Gloria. A presença cênica invisível da menina grávida, tentando dar a luz uma criança, também é bastante dramática. Trancada num quarto da fazenda, ela vai gritando as dores do parto ao mesmo tempo em que roga praga para a família de Jonas.

O terceiro ato abre novamente com mais uma página no álbum da família. Desta vez é Nonô quem aparece ao lado de dona Senhorinha. Este último ato mostra aos espectadores os resultados de uma família incestuosa. Ao saber de Nonô e sua mãe, Edmundo se mata. Tia Rute vai acompanhar o parto da menina e diz que ela está muito mal, capaz até de morrer. Jonas diz que vai ver o caso de perto e, depois de ser insultado pela menina, aparece novamente em cena arrumando o cinto da calça. Insinua-se que ele transou com a moribunda.

Aparece então a sexta página do álbum, agora com um retrato de Jonas. O speaker diz que ele se enforcou por não agüentar a morte de três de seus quatro filhos. Prato cheio para os fofoqueiros, que logo inventaram que Jonas tinha sido assassinado pela mulher, continua o speaker. Interrompe-se o velório de Edmundo e Gloria para a sétima página do álbum. Quem está posando desta vez é Edmundo e Heloísa, logo após o casamento. A expressão cansada dos recém-casados em nada condiz com os comentários enfáticos do speaker sobre a felicidade de Edmundo e Heloísa. A cena seguinte mostra dona Senhorinha atirando à sangue frio no marido para poder fugir com o filho preferido, o maluco Nonô. A marcha fúnebre acompanha a cena assim como, provavelmente, acompanhará todo o destino deste casal incestuoso. Sugestivamente, dona Senhorinha e Nono foram o único casal que consumou o incesto.

Álbum de Família é, sem dúvida, a peça mais ousada, difícil e ambiciosa de Nelson Rodrigues. Seus estudiosos especulam que ele só decidiu escrevê-la porque já tinha na manga o reconhecimento pelo seu trabalho anterior, Vestido de Noiva. Mesmo carregando uma assinatura famosa, Álbum de Família acabou ficando vinte anos censurada por "preconizar o incesto e incitar o crime". O mais inusitado é que a censura federal não fez nenhuma menção ao lesbianismo.

Enredo

Álbum de Família conta a história de uma família entre os anos de 1900, quando os primos Senhorinha e Jonas se casaram, e 1924, quando a família apodreceu completamente. A peça abre com um fotógrafo tirando uma foto dos recém-casados, Senhorinha e Jonas, e um speaker dando à platéia informações sobre o casal. À medida que os atos vão se construindo no palco, aparecem novas fotos do álbum da família e novos comentários errados e imbecilizados (segundo as rubricas do próprio autor) do speaker.

A peça se inicia com os gemidos de uma menina parindo que vai ser escutado ao longo de toda a trama. Logo descobrimos que a menina está grávida de Jonas que, apesar de casado com D. Senhorinha, manda a cunhada trazer-lhe meninas novinhas, virgens, pa??†? ?ra com ele se deitarem. Todas as meninas engravidam e acabam morrendo na hora do parto pois “não têm quadris”. Essa imagem forma um pano de fundo sacrificial sobre o qual a história da família vai se desenrolar.

A família é composta por dona Senhorinha, "frígida" e passiva; Jonas, que desvirgina meninas em casa; Edmundo, o filho que retorna ao lar depois de se separar da mulher; Guilherme, primogênito e aprendiz de padre; Nonô, filho mais novo e completamente maluco; Gloria, a caçula que é expulsa do colégio interno após ter uma relação amorosa com a colega de quarto; e tia Rute, irmã solteirona e feia de dona Senhorinha. As primeiras impressões da família já são estranhas. Porém o espectador ainda não conhece o verdadeiro protagonista de Álbum de Família: o incesto.

Com o tempo, o que é confuso fica ainda pior. Jonas transa com as meninas virgens apenas para desviar seu profundo desejo pela filha. Tia Rute é quem arranja as meninas por gratidão ao dia em que, bêbado, Jonas transou com ela (são várias as menções do autor à feiúra desta personagem, por isso a enorme gratidão que ela tem pelo único homem que teve coragem de tocá-la). Depois de se castrar para ficar livre da tentação de transar com sua irmã Gloria, Guilherme desiste de ser padre e volta para a casa para salvá-la das garras de Jonas. Este, por sua vez, justifica sua luxúria lembrando um dia em que viu um homem sair do quarto de sua mulher pela janela. Na época, insistiu para que Senhorinha revelasse a identidade do amante. Assim que soube tratar-se do jornalista Teotônio, amigo do casal, pediu que a mulher marcasse um novo encontro e matou o amante no quarto onde Senhorinha e ele dormiam.

A pincelada cômica dada a Álbum de Família foi introduzida através do speaker. Ao atuar como opinião pública, faz comentários idiotas, inoportunos e de mau gosto, um irônico enobrecendo dos valores da família patriarcal. Ele é o típico bufão: (...) aquele cuja função é incentivar a te??†? ?ndência à alegria, em vez de contribuir para o enredo.

O speaker surge como que para resgatar o riso e a burla que havia sido excluída, internamente, da peça que, sem dúvida, tem por traço determinante o trágico. Entretanto, através da comicidade, o speaker escancara a seriedade hipócrita e falsa da sociedade da época.

Enquanto externamente, através do fotógrafo e do speaker, se faz um esforço artificial para que a família pareça sobreviver, em sua essência, a família aristocrata brasileira expressa sua deteriorização, por suas próprias ações na peça. A obra termina de maneira extremamente violenta: Guilherme mata a irmã para que ela não fosse possuída pelo pai; Edmundo suicida-se, por não poder concretizar seu amor pela mãe; D. Senhorinha mata Jonas e parte para uma nova fase, a sós com o filho Nonô.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

PROSCENIUM INICIA MONTAGEM DE "ÁLBUM DE FAMÍLIA", DE NELSON RODRIGUES


PROSCENIUM GRUPO DE ARTES CÊNICAS DÁ INÍCIO AOS PREPARATIVOS PARA A MONTAGEM DO ESPETÁCULO “ÁLBUM DE FAMÍLIA”, de Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues, considerado um dos maiores autores teatrais brasileiros, marcou profundamente a história da dramaturgia brasileira com seus textos polêmicos, onde são abordados temas contundentes, quase sempre ligados a tabus, preconceitos, desejos reprimidos. As peças de Nelson Rodrigues desnudam a sociedade, mostrando o que existe por trás da hipocrisia de pessoas "de respeito", revelando enfim que ninguém é totalmente puro ou inocente, e que todos tem desejos sexuais inconfessos e sentimentos reprimidos que a sociedade insiste em esconder.

Álbum de Família retrata exatamente isto: o espectador começa assistindo uma família religiosa que aos poucos vai revelando sentimentos e atrações sexuais pervertidas e incestuosas que se provocam cenas de violência e perversão sexual explícita no teatro. Álbum de família, a tragédia que se seguiu a “Vestido de Noiva”, inicia o ciclo do “teatro desagradável” de Nelson Rodrigues.

 A peça foi fundamental, segundo o próprio Nelson para que ele se tornasse um "abominável autor". Depois de sua encenação, conta, "por toda parte, só encontrava ex-admiradores". A obra foi proibida durante vinte anos por "preconizar o incesto e incitar ao crime", segundo a censura conservadora da época em que foi estreada.

Este é o texto que o PROSCENIUM GRUPO DE ARTES CÊNICAS, de Campo Grande (MS), está se preparando para levar aos palcos brasileiros. O grupo deu início a uma oficina de teatro em parceria com o Sesc-Horto (Campo Grande-MS) com a finalidade de preparar o elenco que deverá participar dessa montagem, que é considerada uma das obras primas de Nelson Rodrigues, juntamente com “Vestido de Noiva” e “O Anjo Negro”.
A intenção do grupo é estrear a peça no início do próximo ano a fim de celebrar o centenário de Nelson Rodrigues que ocorre nesse ano de 2012, homenageando esse que é um dos maiores e mais polêmicos autores teatrais brasileiros.

As oficinas iniciaram na última sexta-feira (17/8) e deverá estender-se até o final do mês de setembro e aqueles que quiserem fazer parte da oficina, ainda poderão se inscrever e obter maiores informações da mesma através do blog do grupo no endereço: www.grupoproscenium.blogspot.com.br.
A oficina é aberta ao público e totalmente gratuita, independente da intenção de participar da montagem, porém ao final das oficinas deverão ocorrer uma seleção para aqueles que quiserem vir a participar dessa polêmica montagem.

O PROSCENIUM GRUPO DE ARTES CÊNICAS é presidido pelo ator (registro profissional DRT 093/MS) e diretor de teatro MÁRIO FILHO, formado em artes cênicas pela ACADEMIA NACIONAL DE ATORES do Rio de Janeiro e atuando em Campo Grande desde 2006, onde já participou de várias montagens pelos mais diversos grupos da capital, tais como Palco & Luz, ADOTE e Prisma entre outros.

PROSCENIUM GRUPO DE ARTES CÊNICAS
www.grupoproscenium.blogspot.com.br / grupoproscenium@gmail.com